sexta-feira, 29 de agosto de 2014

PAPILLON

Texto de Carlito Lima

Albuquerque frequenta a academia duas a três noites por semana, vício em nadar, contínuas braçadas, relaxar antes de dormir. Certa noite depois da natação, dormiu feito um menino, roncou feito um bode, teve um sonho, surreal, quase pesadelo. Ele se aproxima por trás de uma mulher, costa nua, na nuca tatuada uma borboleta colorida, asas abertas, num impulso ele estende a mão tentando alcançar a mulher, de repente a borboleta tatuada levanta voo batendo as asas por cima de seu nariz, nesse momento a mulher vira-se, não tem rosto definido, falta-lhe nariz e boca, apenas dois olhos cinzas olham nos seus olhos, ele se assusta. Acordou-se ofegante, excitado, o nariz irritado, coçando. Sonhou algumas noites seguidas, a mesma mulher, a borboleta, o nariz coçando. O sonho ficou nítido em sua mente, coisa rara, durante o dia tentava interpretar a história, tinha certeza, conhecia aquela tatuagem, tinha visto a borboleta colorida num pescoço, não recordava a pessoa.
À noite custava a adormecer pensando no sonho. Tentou relaxar, apelou para cinema, andar na praia, escrever, saiu com casais amigos, bebeu além da conta, dormiu feito um príncipe, entretanto, o mesmo sonho veio-lhe na madrugada. Consultou a um psicólogo amigo, a conversa de uma hora não deu resultado prático. A nuca tatuada não lhe saía da cabeça durante o dia, nem nos sonhos durante a noite.
Foi à natação relaxar, a academia repleta de jovens, velhos, mulheres, exercitando ou nadando. Albuquerque nadou ininterruptamente oito piscinas, ao terminar 200 metros, boa marca para um sessentão, segurou-se na borda, pequeno descanso. Ele notou na raia vizinha uma mulher fazendo exercício de respiração, mergulhava, soltava o ar, emergia, respirava novamente. Seu coração disparou, entre surpreso e emocionado, avistou por trás do pescoço da mulher, a tatuagem, a borboleta colorida. Encantado, extasiado ao ver a nuca tatuada, tentou conter a emoção, não pode conter o olhar insistente à nadadora, mulher madura, bem conservada, nem bonita, nem feia, ele olhava fixamente a borboleta. Certo momento ela tirou os óculos, olhos cinzas, segurou a escada da piscina, subiu. Albuquerque teve certeza, era a mulher do sonho. Ele também subiu, acompanhou-a discretamente, aproximou-se, num impulso puxou conversa.
- Essa borboleta tatuada me lembrou um livro, Papillon, a história de um preso fugitivo na Guiana Francesa, ele tinha uma borboleta tatuada, era conhecido como Papillon, borboleta em francês.
- Interessante, eu gostaria de ler, qual livraria tem esse livro?
- Posso lhe emprestar, a senhora vem quando por aqui na academia?
- Toda noite eu nado a partir das sete horas.
- Amanhã trago o livro, a senhora vai gostar, tenho certeza. Fizeram um filme com o Dustin Hoffman.
- Até amanhã, despediu-se a nadadora entrando no carro.
Albuquerque ao chegar em casa tomou um bom café, conversou com Natália, a esposa, estava tranquilo, satisfeito. Procurou "Papillon", não encontrou, ficou especulando, lembrou, havia doado alguns livros a uma Biblioteca Comunitária. Nessa noite teve o mesmo sonho, mudou um detalhe, o rosto da mulher era visível, a nadadora.
Dia seguinte pela manhã foi à biblioteca, estava o livro, a bibliotecária emprestou-lhe. À noite, antes das sete ele nadava, ao avistar a mulher, alegrou-se, cumprimentaram-se, trouxe o livro, disse-lhe arrancando um sorriso, saíram juntos da piscina, conversaram na lanchonete por meia hora. Na outro dia conversaram mais. Ela, professora de música, divorciada, dois filhos, não queria compromissos, gostava de ler, estava adorando o livro. Nessa noite, durante o sonho ele abraçou a nadadora, acordou-se excitado, agarrado à esposa, Natália gostou.
De conversa em conversa à beira da piscina, tornaram-se amigos, dois adultos, ele não teve dúvida em contar a história do sonho, confessou, só deixava de ter o sonho quando beijasse a borboleta, ela gargalhou. Marcaram encontro na outra tarde. Amizade colorida, sem compromisso, assim acertaram.  Albuquerque não sonha mais com a mulher sem rosto, entretanto, em algumas tardes deliciosas, ao vivo e a cores beija a borboleta tatuada. Com carinho sussurra ao ouvido da nadadora, "Minha Papillon".

VANTAGENS DE SER PEITUDA

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES


quarta-feira, 27 de agosto de 2014

RECEITA MÉDICA

Texto de Aloisio Guimarães

É muito comum, quando algum colega aparenta estar com alguma doença, a gente aconselhar:
- Rapaz, é melhor você ir procurar um médico...
A minha filha, que, com apenas 22 aninhos, já era médica, uma vez que passou no vestibular com 16 anos (eu sou um pai coruja, com muito orgulho), tem um tal de “refluxo”.
Pense numa coisinha chata da gota serena! É somente terminar de comer, que “mete o pau a tossir”! Chega a ser irritante.
Um dia desses, logo após o almoço, como sempre, quando ela começou a tossir, não me contive e dei-lhe o conselho de sempre, um pouco modificado, é claro:
- Minha filha, é melhor você ir procurar “você”...
Pai liberal que eu sou, quase que apanho!

sábado, 23 de agosto de 2014

MANHÃ DE SÁBADO NA JATIÚCA

Texto de Carlito Lima

Sábado, irresistível e luminosa manhã ensolarada no rigoroso inverno nordestino. Vestindo um velho calção de banho, sandália havaiana, desço à praia, o dia para vadiar. Sento-me à mesa no Acarajé da Irmã, em frente ao Hotel Meliá, sem camisa, pés descalços, areia morna, fofa, branca. Faço um reconhecimento geral, avisto o mar azul esverdeado encontrando o céu no infinito, praia cheia, crianças, velhos, ambulantes, em torno de minha mesa algumas mulheres deitadas, pegando sol, um toque de sensualidade entre os banhistas, sinto-me em casa, é minha praia. Faço o pedido.
- Irmã, um acarajé só com camarão, sem pimenta, cerveja gelada.
Nesse momento encosta um bêbado amigo, abrindo os braços, sorrindo, tentando me cativar.
- Assisti sua entrevista na televisão, me dê seu novo livro, quero ler, deixe aqui, no Acarajé.
Senta-se sem cerimônia na cadeira vizinha, chega-se a meu lado, recita um poema de Bandeira, puxa conversa. É letrado, não sei a causa, caiu no alcoolismo, semana passada paguei-lhe uma lata de Pitu às 8 horas da manhã no supermercado. A irmãzinha trouxe o acarajé e cerveja, dou R$ 10,00 ao bêbado, satisfeito, feliz, ele parte em busca de uma dose. Meu amigo é inteligente, deve ter uma historia interessante, qualquer dia descubro.
Acarajé crocante, saboroso, recheio de camarão, a cerveja gelada desce junto, aumenta o prazer. Ambulantes passam, param, oferecem variadas mercadorias, óculos escuros, sanduíche natural, amendoim, caipirosca, brinquedo, casquinha de siri, pulseiras e brincos. São heróis do Brasil real, sobrevivem, sustentam a família, trabalhando na areia quente, oferecendo artigos diversos, sempre de bom humor, peculiaridade de nosso povo, merecedor de melhor qualidade de vida, de um país mais justo, sem essa cruel diferença entre classes sociais, e privilégios de poucos.
Estava em meus devaneios socialistas quando elas chegaram. Eram três jovens, se assim posso chamar mulheres passando dos 30 anos. Plantaram-se em frente à minha mesa. A loura alta tirou a "saída de praia", um minúsculo biquíni branco cobria seu belo corpo, segurou firme o pau da sombrinha, enfiou-o cavando na areia até firmá-lo para receber a sombrinha multicolorida. A segunda moça, morena dos cabelos cacheados, abriu as três cadeiras alugadas, uma para cada colega, sentou-se ao sol, pegou uma revista de celebridades, cheias de fotos, folheou até encontrar boa notícia, comentou, o artista tal deixou a mulher, já estava com outra. A terceira, morena de cabelos lisos, Terezinha, ouvi bem o nome, segurou firme sua cadeira, abriu-a, em minha frente, continuou em pé, enfiou a mão numa pequena bolsa cheia de bugigangas femininas, conseguiu tirar um tubo de óleo. Iniciou o ritual, liturgia do alisado, massageava seu corpo bem torneado, cheios de curvas, de deixar eunuco excitado, passava vagarosamente suas mãos untadas por entre as pernas morenas. Tomando cerveja, eu admirava aquela prática, competentes mãos, devia ser massagista, pensava, sem tirar os olhos da moça, desbragadamente. De repente ela virou o rosto como se procurasse alguém olhando, um possível "voyeur", disfarcei a vista. Ela notou-me, olhou novamente pelos lados. Como se ninguém tivesse olhando, colocou a mão por dentro do biquíni por trás, na parte glútea, alisou forte, massageando a bunda, eu descaradamente olhava embevecido aquele movimento de vai e vem, ao mesmo tempo irado, não pelo movimento, por sentir que ela me viu, tenho certeza, achou-me um idoso inofensivo, não importou minha presença, ofendeu meu ego, afinal tenho apenas 74 anos. O massagear glúteo compensou a ofensa.
Depois da quinta cerveja e dois acarajés, hora de almoço, juntei meus trecos na mesa, cheguei-me perto das vizinhas, pedi para dar uma olhada enquanto mergulhava, elas, simpáticas, sensuais, sorrindo disseram sim.
Pulei as primeiras marolas, mergulhei de cabeça dentro ao mar verde esmeralda, nadei devagar um bom pedaço, retornei, relaxei o corpo imerso na água morna, ao longe avistei as três meninas, nem sabem, enriqueceram minha manhã de sábado na Jatiúca.

sábado, 16 de agosto de 2014

O ESPELHO DE GANDHI

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Certo dia perguntaram a Mahatma Gandhi quais são os fatores que destroem os seres humanos.
Ele respondeu:
- A Política, sem princípios; o Prazer, sem compromisso; a Riqueza, sem trabalho; a Sabedoria, sem caráter; os negócios, sem moral; a Ciência, sem humanidade; a Oração, sem caridade. A vida me ensinou que as pessoas são amigáveis, se eu sou amável; que as pessoas são tristes se estou triste; que todos me querem, se eu os quero; que todos são ruins, se eu os odeio; que há rostos sorridentes, se eu lhes sorrio; que há faces amargas, se eu sou amargo; que o mundo está feliz, se eu estou feliz; que as pessoas ficam com raiva quando eu estou com raiva e que as pessoas são gratas, se eu sou grato. A vida é como um espelho: se você sorri para o espelho, ele sorri de volta. A atitude que eu tome perante a vida é a mesma que a vida vai tomar perante a mim. Quem quer ser amado, ama. O caminho para a felicidade não é reto. Existem curvas, chamadas EQUÍVOCOS; existem semáforos, chamados AMIGOS; luzes de cautela, chamadas FAMÍLIA; e tudo se consegue se tens: um estepe, chamado DECISÃO; um motor poderoso, chamado AMOR; um bom seguro, chamado FÉ; combustível abundante, chamado PACIÊNCIA, mas acima de tudo um motorista habilidoso, chamado DEUS!

A TELEVISÃO...

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES


terça-feira, 5 de agosto de 2014

NA ARCA DE NOÉ...

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES
Na Arca de Noé, a bicharada, logo que entrou, meteu o pau a transar. Era uma zorra total: o leão comendo a zebra, a girafa dando para o elefante, o gavião comendo o urubu, o jacaré transando com o papagaio... Era um verdadeiro bacanal!
Para "colocar ordem na casa", Noé baixou uma lei em que os animais só poderiam transar com os da sua mesma espécie e nos dias marcados.
Para que fosse respeitada a nova ordem, Noé entregou para cada animal, uma fichinha, marcando dia e hora para a transa de cada um.
No outro dia, o macaco (sempre o macaco) passou pela macaca e, na frente dos outros animais, disse:
- Quarta-feira, às 3 horas da tarde, você vai sofrer!
A macaca ficou envergonhada!
Logo depois, de novo, lá vem o macaco e, na frente de todos, fala para a macaca:
- Quarta-feira, às 3 horas da tarde, você vai sofrer!
E assim foi, durante todo o dia, toda vez que a macaca passava pelo macaco.
Desse modo, a macaca passou a ser o alvo de piadinhas maliciosas de todos os outros animais...
A macaca ficou bastante aborrecida com a situação provocada pelo macaco e foi reclamar para Noé:
- Noé, o macaco, toda hora que me encontra, fala para toda a bicharada ouvir que quarta-feira, às 3 horas da tarde, eu vou sofrer... Eu sei que quarta-feira, às 3 horas da tarde, nós vamos transar, mas ele não precisa ficar espalhando para todo mundo!
Após ouvir a reclamação, Noé foi falar com o macaco e deu uma dura nele...
Depois da bronca de Noé, o macaco se justificou:
- Desculpe-me, Noé, mas é que ela vai sofrer mesmo! Acontece é que eu perdi, para o jumento, a minha fichinha no jogo de baralho!