domingo, 31 de maio de 2015

VENTOS DA RUAH

Texto de Mauro Brandão

Os ventos são assustadores, perigosos, frenéticos, alucinantes...
das máquinas frias, das ruas agonizantes, das buzinas nervosas,
dos ruflares de plástico, dos ruídos das rajadas, dos niqueis prostituídos,
dos gritos dos infelizes, dos apelos dos fanáticos, da arrogância dos egoístas,
das tempestades dos míopes, dos abismos vazios, do viver sem viver... 

Ventos da fome, da injustiça, da exploração surda, do desamor.
Ventos da vaidade, da cobiça, da inveja, da gula insaciável.
Ventos da intolerância, do ódio gratuito, do ser sem ser!
Ventos da tempestade escavadora e destruidora de uma Terra...
Terra! Que nunca foi nossa, e que sempre, nossa, será! 

Mas há além da visão, um vento que nos liberta da prisão,
e que abre, invadindo em tudo o que há, uma brecha na fresta da dor.
Há um vento implacável, santo, ungido, e que invade o ser de luz.
Há sim, um vento que se liberta dos muros da escravidão
e sopra o ser pelo encantamento que lhe explode o escuro. 

Há o Vento do Espírito, o Vento da Ruah!
Que nos faz enxergar além do ofuscamento dos relâmpagos.
Que nos enche de asas até trazer em nós o luar e o vento solar.
O Vento da Ruah é o sopro do Libertador que surge do caos,
e traz a beleza, a graça, o êxtase, a alegria e o sentido do vento. 

Vento, brisa, calmaria, viração, tempestade, ventania...
Sua vida está de um lado ou de outro nesse espelho de si.
De um lado do vento, os ventos que lhe cegam e ensurdecem.
Do outro lado do vento, os ventos que lhe voam e lhe mergulham...
Voam e mergulham... aos ventos do Espírito, os Ventos de Ruah.
 

sábado, 30 de maio de 2015

UM COMPROMISSO DE AMOR

Texto de Maspole Albuquerque

No último dia 25 de maio o Brasil comemorou o dia nacional da adoção. Para muitos significa à oportunidade de construir a tão sonhada família. Para outros, o sonho e a conquista de ter um lar e alguém para chamar de “pai ou mãe”.
A infertilidade pode ser uma das mais difíceis experiências da vida de um casal. Isso porque a dificuldade em gerar um filho ativa fantasias, às vezes, incontroláveis tanto para o homem como para a mulher.
Para o homem, um filho representa virilidade e força. Já para a mulher, é o símbolo máximo de sua condição feminina. Quando o casal tenta ter filhos e não consegue, essa incapacidade atormenta o relacionamento, a vida sexual, a estima pessoal e o contato com amigos e familiares. Em resumo: coloca o casal em xeque como em nenhum outro momento de sua vida.
O médico moderno tem condições de ajudar casais inférteis, mas o tratamento é caro, longo e acessível apenas nas grandes cidades do país.
Para enfrentar essa situação-limite, vale a pena pensar com o coração, levando a sério a possibilidade de adotar uma criança. Afinal, o amor é uma dádiva, um sentimento que se conquista e se transmite. Ninguém nasce amando, o que significa, em outras palavras, que é possível aprender a amar.
Se o casal decidir pela adoção, estará não apenas firmando um compromisso amoroso como também doando amor a si mesmo.
Por que se atormentar com a infertilidade, se há sempre uma criança à espera de ser amada?
A adoção é uma realidade social que se concretiza através de ato jurídico, que “cria entre duas pessoas vínculo de parentesco semelhante à paternidade e filiação”.
Lembre-se que todo mundo merece ser feliz, assim como toda criança merece ter uma família.
Em lugar da frustração de não ter filhos, o casal pode optar pela solução que é um compromisso de amor.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

O OÁSIS

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Conta uma lenda popular do Oriente que um jovem chegou à beira de um oásis, junto a um povoado e, aproximando-se de um velho, perguntou-lhe:
- Que tipo de pessoa vive neste lugar?
Por sua vez, o velho lhe respondeu com outra pergunta:
- Que tipo de pessoa vivia no lugar de onde você vem?
O jovem, meio desiludido, respondeu:
- Oh, um grupo de egoístas e malvados; estou satisfeito de haver saído de lá.
Ao ouvir sua resposta, o ancião avisou:
- A mesma coisa você haverá de encontrar por aqui...
No mesmo dia, outro jovem se acercou do oásis para beber água e vendo o ancião perguntou-lhe:
- Que tipo de pessoa vive por aqui?
O velho respondeu com a mesma pergunta:
- Que tipo de pessoa vive no lugar de onde você vem?
O rapaz respondeu:
- Um magnífico grupo de pessoas, amigas, honestas, hospitaleiras. Fiquei muito triste por ter de deixá-las.
Novamente o ancião avisou:
- O mesmo encontrará por aqui...
Um homem que havia escutado as duas conversas perguntou ao velho:
- Como é possível dar respostas tão diferentes à mesma pergunta?
Ao que o velho respondeu:
- Cada um carrega no seu coração o ambiente em que vive. Aquele que nada encontrou de bom nos lugares por onde passou, não poderá encontrar outra coisa por aqui. Aquele que encontrou amigos ali, também os encontrará aqui, porque, na verdade, a nossa atitude mental é a única coisa na nossa vida sobre a qual podemos manter controle absoluto.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

OS DOIS TENENTES

Texto de Carlito Lima

O Núcleo de Preparação de Oficiais da Reserva - NPOR - do 20º Batalhão de Caçadores, hoje 59º Batalhão de Infantaria Motorizado, é celeiro de muitos oficiais da reserva do Exército Brasileiro.
Anos atrás, dois tenentes formados pelo NPOR foram estagiar seis meses no 14º Regimento de Infantaria sediado em Jaboatão dos Guararapes, Pernambuco.
Os tenentes Cavalcanti e Tenório se apresentaram ao comando com ardor e amor à Pátria. Em tempo integral no quartel, dormiam no quarto de oficiais. Bons militares, aprendiam as lições, o trabalho do Regimento. Entretanto, nem tudo era ralação, davam bordejos e paqueradas pela vizinhança, pegavam o trem em busca dos cabarés do Recife.
Numa dessas viagens de trem eles conheceram Marília e Virgínia. Achado do destino, as duas paraibanas trabalhavam em uma fábrica naquela região, moravam juntas numa casa em Tejipió, perto do 14º R.I. Eram mulheres livres, independentes, coisa raríssima naquela época. Com uma semana de namoro os dois tenentes estavam dentro da pequena casa das operárias. Entendiam-se às maravilhas, nos passeios, nas conversas, na cerveja e na cama, havia um probleminha, as ideias socialistas das operárias chocavam com o pensamento conservador dos militares.
Tenente Cavalcanti encantou-se com a beleza de Virgínia, loura, olhos cinza, serena na conversa e no amor. Depois de algum tempo, ao ouvir os gritos de euforia sexual, os altos gemidos da morena Marília, ele ficou com inveja do amigo. Tenório confidenciou, nunca havia conhecido mulher como aquela, gostava do amor, melhor de cama não existia, só parava de gritar na apoteose, ele tinha que dar duas tapinhas na cara. Ele ficou inebriado com tantas formas de amor inventadas pela namorada.
Passaram cinco meses, inesquecíveis tardes e noites de amor na pequena casa das operárias de Tejipió.
Terminado o estágio, retornaram a Maceió. Despedida com choro, sexo e cerveja, a casinha de Tejipió tremeu naquela noitada com o trabalho dos quatro amantes.
Três semanas depois da despedida, no 20º BC, Cavalcanti recebeu carta de Virgínia, final de semana as duas estariam em Maceió para matar saudade. Quando Tenório soube, entrou em pânico, noivo, se casaria no próximo mês, se o vissem com Marília, a noiva ciumentíssima não perdoaria. Pediu ao amigo dar desculpas, cooperava financeiramente com as despesas, contudo as deixassem longe de sua área. Cavalcanti também era noivo em Major Isidoro, pequena e bonita cidade do sertão alagoano, mandou recado, não viajaria no fim-de-semana por obrigações militares. Fardado, foi esperar as operárias na Rodoviária na noite da sexta-feira.
Saltaram do ônibus, Virgínia se enlaçou com o namorado, beijando-lhe a boca. Marília, decepcionada, ficou triste sem a recepção esperada, sem seu Tenente. Hospedaram-se do Hotel Pimenta, centro da cidade. Marília, boa colega, inventou dar uma volta a pé nos arredores, dando liberdade para o casal se amar no pequeno quarto do hotel.
No sábado passearam, navegaram na lancha do horário na Lagoa Mundaú. Domingo à tarde, depois da praia, foram ao Cinearte. Cavalcanti combinou com Marília esperar Tenório no hotel, ele apareceria, certeza. Quando o filme, “Suplício de uma Saudade”, estava no início, Cavalcanti reclamou de forte dor de barriga, pediu licença à namorada, levantou-se, voltaria em poucos minutos. Correu ao Hotel Pimenta, bateu no quarto. Marília ao abrir a porta não conseguiu falar, ele abraçou a morena, ela não resistiu. Cavalcanti pedia, grita meu amor, ela obedecia. Amaram-se aos gritos, finalmente um urro canino, seguido de duas tapinhas. Cavalcanti fumou um cigarro, retornou correndo para o cinema, sentou-se ao lado da desconfiada Virgínia.
Depois do filme, no quarto do hotel, Virgínia percebeu uma carteira de cigarros continental, sem filtro, em cima da cabeceira. Muito viva, descobriu a traição do namorado e da amiga. Arrumou a mala, partiu para a Rodoviária. Marília havia entrada em férias, passou mais três semanas e meia de amor com o namorado substituto. Os hóspedes do Hotel Pimenta se acostumaram com os gritos de amor da quente paraibana e do ardiloso tenente.

quarta-feira, 27 de maio de 2015

O HOMEM QUE MOVEU A MONTANHA

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Há cerca de cinquenta anos, um agricultor, sem terras, chamado Dashrath Manjhi, de Gaya, Bihar, Índia, decidiu solucionar o problema de comunicação dos habitantes da sua aldeia, que estavam quase isolados do resto do mundo por quase intransponíveis montes de rochas.
Por volta de 1959, sua esposa faleceu por estar doente e não ter acesso a socorro imediato, pois não havia como transportá-la até o ambulatório médico mais próximo, que ficava do outro lado dos montes com 90 metros de altura.
A tristeza pela perda da esposa fez com que Manjhi, sozinho, decidisse criar uma passagem no local, de forma que ninguém mais tivesse o mesmo destino de sua amada companheira. Para isso, ele vendeu seus bodes e cabras para comprar cinzeis, cordas e martelos. A mudança na sua atitude transformou-o no motivo de riso entre as pessoas, que o chamavam de esquisito e de maluco.
Sem importar-se com a opinião dos outros, Manjhiseguiu seguiu o seu objetivo com determinação, martelando, cortando e abrindo brechas na rocha por 22 anos. No final do seu árduo trabalho, ele finalmente ficou cara a cara com o seu sonho: o outro lado do monte! Ele reduziu a distância de 70 km para apenas 1 km.
Após concluir sua tarefa, Dashrati Manjhi tornou-se conhecido como "O Homem da Montanha".
Lamentavelmente, após uma luta contra um câncer, este ser humano admirável faleceu em 18 de agosto de 2007, no Instituto Indiano de Ciências Médicas em Nova Delhi, sendo devidamente homenageado no seu funeral.
Dashrath Manjhi, um homem que foi ridicularizado por sua determinação e força de vontade, deixa como legado estas qualidades e uma passagem mais curta, usada por seus conterrâneos todos os dias.
Algumas valiosas lições para aprendermos com essa história:
1. A paciência é a maior das virtudes que nos conduzem ao sucesso.
2. Sonhe com o impossível.
3. Atitude é fundamental.
4. Mantenha seu pensamento positivo.
5. Não dê importância se as pessoas acharem que você está maluco por causa das suas ideias ou objetivos originais.

UM EXEMPLO...

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES


terça-feira, 26 de maio de 2015

FAÇA A ESCOLHA CERTA

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Um homem perguntou a um sábio se ele deveria ficar com a sua esposa ou com a sua amante.
O sábio levou duas flores em suas mãos, uma com uma rosa e a outra com um cacto e perguntou ao homem:
- Se eu lhe der uma dessas flores qual delas você escolhe?
O homem sorriu e disse:
- A rosa é lógico!
- És imprudente - respondeu o sábio - às vezes os homens são movidos por beleza externa ou pelo mundano e escolhem o que lhes parece brilhar mais. A rosa é mais bela, mas morre logo. O cacto, por sua vez, independentemente do tempo ou clima permanece o mesmo, verde com espinhos, e um dia vai lhe dar a flor mais bonita que você já viu. Sua esposa conhece seus defeitos, suas fraquezas, seus erros. Com ela você grita seus momentos ruins e ela está sempre pronta a te ajudar. Sua amante quer seu dinheiro, sua felicidade, seus espaços, fantasias e seu sorriso. Na primeira dificuldade não hesitará em te trocar por outro amante jovem, feliz e com dinheiro. Agora me diga, homem: com quem você quer ficar? Dê valor à sua mulher, sem importar como ela é por fora, pois o que vale mesmo é que de bom ela é por dentro.
PENSE NISSO

ESSES HOMENS...

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES









segunda-feira, 25 de maio de 2015

A ESTRANHA BELEZA DA LÍNGUA PORTUGUESA

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES

Esse é um dos melhores registros da "Língua de Camões", a nossa digníssima Língua de Portuguesa, a tal que tem a fama de ser pérfida, infiel ou traiçoeira, que ele já leu.
Vamos a ele:
Um político que estava em plena campanha chegou a uma pequena cidade, subiu para o palanque e começou o discurso:
-  "Compatriotas”, “companheiros”, “amigos”! Estamos aqui, “convocados”, “reunidos” ou “juntos” para “debater”, “tratar” ou “discutir” sobre um “tópico”, “tema” ou “assunto”, o qual me parece “transcendente”, “importante” ou de “vida ou morte”. O “tópico”, “tema” ou “assunto” que hoje nos “convoca”, “reúne” ou “junta” a todos nós, é a minha “postulação”, “aspiração” ou “candidatura” à Presidente da Câmara deste Município.
 De repente, uma pessoa do público pergunta:
 - Ouça lá, porque é que o senhor utiliza sempre três palavras, para dizer a mesma coisa?
O candidato respondeu:
 - Pois veja, caro senhor: a primeira palavra é para pessoas com nível cultural muito alto, como intelectuais em geral; a segunda é para pessoas com um nível cultural médio, como o senhor e a maioria dos que  estão aqui; a terceira palavra é para pessoas que têm um nível cultural muito baixo, pelo chão, digamos, como aquele alcoólico, ali deitado na esquina.
 De imediato, o alcoólico levanta-se a cambalear e "atira":
 - Senhor “postulante”, “aspirante” ou “candidato” (hic), o “fato”, “circunstância” ou “razão” pela qual me encontro num estado “etílico”, “alcoolizado” ou “mamado” (hic) não “implica”, ”significa” ou “quer dizer” que o meu nível (hic) cultural seja ”ínfimo”, “baixo” ou mesmo “rasca” (hic). E com toda a “reverência”, “estima” ou “respeito” que o senhor me merece (hic), pode ir logo “agrupando”, “reunindo” ou “juntando” (hic) os seus “haveres”, “coisas” ou “bagulhos” (hic) e “encaminhar-se”, “dirigir-se” ou “ir direitinho” (hic) à “leviana da sua progenitora”, à “mundana da sua mãe biológica” ou à “puta que o pariu”!

A EVOLUÇÃO DA ESCRITA

POSTAGEM: ALOISIO GUIMARÃES


domingo, 24 de maio de 2015

A ORIGEM DO SOBRENOME

Texto de Rainer Sousa

- Ei, você conhece o fulano?
- Que fulano?
- Fulano de Sousa, Guimarães ou Rocha?
Sem dúvida, muitas pessoas já tiveram a oportunidade de desenvolver um diálogo como esses. Contudo, não ache você que os sobrenomes sempre estiveram por aí, disponíveis em sua função de distinguir pessoas que tivessem o mesmo nome ou revelando a árvore genealógica dos indivíduos.
Até por volta do século XII, os europeus tinham o costume de dar apenas um nome para os seus descendentes. Nessa época, talvez pelo próprio isolamento da sociedade feudal, as pessoas não tinham a preocupação ou necessidade de cunharem outro nome ou sobrenome para distinguir um indivíduo dos demais. Contudo, na medida em que as sociedades cresciam, a possibilidade de conhecer pessoas com um mesmo nome poderia causar muita confusão.
Imaginem só! Como poderia repassar uma propriedade a um herdeiro sem que sua descendência fosse comprovada? Como enviar um recado ou mercadoria a alguém que tivessem duzentos outros xarás em sua vizinhança? Certamente, os sobrenomes vieram para resolver esses e outros problemas. Entretanto, não podemos achar que uma regra ou critério foi amplamente divulgado para que as pessoas adotassem os sobrenomes.
Em muitos casos, vemos que um sobrenome poderia ser originado através de questões de natureza geográfica. Nesse caso, o “João da Rocha” teve o seu nome criado pelo fato de morar em uma região cheia de pedregulhos ou morar próximo de um grande rochedo. Na medida em que o sujeito era chamado pelos outros dessa forma, o sobrenome acabava servindo para que seus herdeiros fossem distinguidos por meio dessa situação, naturalmente construída.
Outros estudiosos do assunto também acreditam que alguns sobrenomes apareceram por conta da fama de um único sujeito. Sobrenomes como “Severo”, “Franco” ou “Ligeiro” foram criados a partir da fama de alguém que fizesse jus à qualidade relacionada a esses adjetivos. De forma semelhante, outros sobrenomes foram cunhados por conta da profissão seguida por uma mesma família. “Bookman” (livreiro) e “Schumacher” (sapateiro) são sobrenomes que ilustram bem esse tipo de situação.
Quando você não tinha fama por algo ou não se distinguia por uma razão qualquer, o seu sobrenome poderia ser muito bem criado pelo simples fato de ser filho de alguém. Na Europa, esse costume se tornou bastante comum e pode ser visto alguns sobrenomes como MacAlister (“filho de Alister”), Johansson (“filho de Johan”) ou Petersen (“filho de Peter”). No caso do português, esse mesmo hábito pode ser detectado em sobrenomes como Rodrigues (“filho de Rodrigo”) ou Fernandes (“filho de Fernando”).
Hoje em dia, algumas pessoas têm o interesse de remontarem a sua arvore genealógica ou conhecer as origens da família que lhe deu sobrenome. Talvez, observando algumas características do próprio sobrenome, elas possam descobrir um pouco da história que se esconde por detrás do mesmo. Afinal de contas, o importante é saber que a ausência desses “auxiliares” nos tornaria mais um entre os demais.

sábado, 23 de maio de 2015

O RETIRO

Texto de Carlito Lima

Arnaldo quando criança vivia brincando de médico com as primas. Era o doutor. Certa vez, Tio Alberto pegou-o fazendo massagem na bundinha da priminha. Ficou de castigo, proibido de brincar e falar com as primas. Sentiu-se injustiçado. Na puberdade vivia à cata de empregadas doméstica. Elas gostavam de serem assediadas pelo frangote. Arnaldo perdeu a virgindade aos 13 anos na cama dos pais. Eles viajaram, deixaram-no sozinho com Jacinta, negra gorda, bonita e libertina. Arnaldo pediu, implorou, amor durante todo o dia. Jacinta não resistiu, menino insistente. Ele foi à Glória, não era mais virgem, se gabava.
Na adolescência, conviveu com as primas, festas, clubes. Namorou todas as primas possíveis. Afirmava “priminha não é irmãzinha”.
Quis o destino, casou-se com uma prima, bela sertaneja criada com leite de jumento, disposta e ciumenta. Ela adorava o bigodinho à lá Clark Gable do marido, ares de galã do cinema.
Nosso herói tinha medo da destemida esposa, fazia estripulias bem escondidas. Arnaldo nunca foi de deixar as coisas acontecerem, quando podia, a imaginação funcionava, inventava viagens e reuniões para ter nos braços alguma quenga, não interessava, fosse mulher, bastava.
No início do ano, Arnaldo conheceu uma morena, bonita, vistosa, quarentona, todas as carnes no lugar, durante uma festa na casa de um amigo. Ela em férias, do Recife, muito divertida. Durante a conversa, Rosa deu opiniões avançadas, achava casamento enfadonho, havia passado por dois. Afirmou, na vida para valer todos somos solteiros, ninguém é de ninguém, deu uma discreta piscada de olhos para Arnaldo. Ele estremeceu na cadeira.
Na saída Arnaldo distribuiu alguns cartões de visita, o objetivo era Rosa, ao receber deu um sorriso malicioso. Ele conseguiu cochichar: “telefone-me”.
Em casa, Gal comentou, Rosa tinha cara de piranha, se oferecendo aos homens. Ainda bem que havia respeitado sua presença, não deu em cima de seu marido, se acontecesse ela abria no pau. Ele só dizia: "Que nada meu amor!".
Na segunda-feira Arnaldo trabalhava no escritório, o celular tocou, era Rosa, ele quase explode de alegria. Conversaram algum tempo, marcaram, três da tarde, defronte ao Memorial Teotônio Vilela, praia da Pajuçara.
Não atrasou, de longe enxergou a morena, vestido vermelho. Parou o carro, ela entrou, seguiram para o motel. Arnaldo estava pleno de alegria. Ele não se apaixona, simplesmente tem prazer em estar com mulher, de flertar, de amar, a coisa mais sublime na vida. Uma aventura com uma bela mulher, era o êxtase.
Rosa, extremamente divertida, passou alguns dias na cidade, saindo, quando podia com nosso Arnaldo. Convidou-o a passar o carnaval no Recife, aliás, em Olinda onde morava. Ele iria conhecer o melhor carnaval do mundo.
Afinal ela retornou, o trabalho chamou-a, deixou Arnaldo matutando como fugir para o Recife no carnaval.  No domingo ele leu no jornal, haveria um retiro espiritual para evangélicos no litoral norte, durante o carnaval.
Arnaldo imediatamente começou a frequentara Igreja, confessou à mulher, uma voz forte o chamara. Gal ficou impressionada, temente a Deus, deu incentivo que o marido fosse à igreja evangélica. Ao chegar em casa, abria a bíblia, orava, dizia para si mesmo: “Olinda vale uma reza”.
Nas vésperas do carnaval informou à esposa: Faria um retiro espiritual, só homens, no litoral norte durante os quatro dias, de sábado à quarta-feira. Gal ficou encantada com a transformação do marido, concordou. Ela aproveitaria para visitar a família na fazenda perto de Cacimbinhas durante o carnaval. Os dois filhos, já homens, se viravam.
Arnaldo se inscreveu para o retiro, com seu nome na relação, pagou os dias de hospedagem no hotel do litoral norte.
No sábado de carnaval, quando Gal partiu no carro da irmã para Cacimbinhas, avisou, por recomendação da direção do retiro, o celular ficaria desligado, deu um número para emergência. Arnaldo partiu para o retiro. Conheceu companheiros, orou, saiu a caminhar com a turma. Ao cair da tarde do domingo, avisou, dormiria fora, pegou o carro, tomou rumo de Pernambuco. Chegou conforme combinado, Rosa deu-lhe uma fantasia de mascarado, pulou a noite toda subindo e descendo as ladeiras de Olinda. Hospedado na casa da namorada, passou o maior carnaval de sua vida nos braços da morena, fazendo o passo nos acordes do Vassourinhas, cantando Evocação e o Frevo da Saudade.
Rosa tentou ele ficar na quarta-feira de cinzas no Bacalhau do Batata. Mas o pavor que tinha da esposa fez com que ele dormisse na terça-feira no hotel do retiro, assistiu o encerramento. Se a mulher descobre, seria homem morto.
Até hoje Gal não entendeu o surto de fé de Arnaldo no início daquele ano. Ele sempre responde: São fases da vida, fases da vida.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

HABEAS CORPUS

Texto de Noel Rosa e Orestes Barbosa

No tribunal da minha consciência
O teu crime não tem apelação
Debalde tu alegas inocência
Mas não terás minha absolvição
Os autos do processo da agonia
Que me causaste em troca ao bem que fiz
Correram lá naquela pretoria
Na qual o coração foi o juiz
Tu tens as agravantes da surpresa
E também as da premeditação
Mas na minh’alma tu não ficas presa
Porque o teu caso é caso de expulsão
Tu vais ser deportada do meu peito
Porque teu crime encheu-me de pavor
Talvez o habeas corpus da saudade
Consinta o teu regresso ao meu amor
 

quinta-feira, 21 de maio de 2015

O CUSCUZ DA SEBASTA

Texto de Aloisio Guimarães 

O meu pai trabalhou na Rede Ferroviária Federal S.A., na qualidade de Chefe de Estação, tendo exercido suas atividades em algumas cidades, mas a maior parte do tempo foi em Palmeira dos Índios ou em Igaci.
Quem não conhece Igaci, saiba que é uma pequena cidade, distante cerca de 16 km de Palmeira dos Índios. Todo mundo que viaja de Palmeira dos Índios para Arapiraca, ou vice-versa, obrigatoriamente, tem que passar por Igaci. As duas cidades são tão próximas uma da outra que muitas vezes fiz o percurso Palmeira/Igaci “nas canelas”, caçando passarinho, ou então de bicicleta.
Como não pagávamos passagens nos trens, quase todos os dias, eu e o meu irmão Casé, estávamos em Igaci. Às vezes dormíamos por lá, outras não. Nas vezes que dormíamos, um de nós tinha a obrigação de ir até a casa da Sebastiana, uma conhecida do nosso pai, buscar um cuscuz de milho, ralado na hora, que ela preparava para o nosso velho comer no café da manhã (torrado em casa), com leite de gado, cheio de nata...
Sebastiana, que chamávamos de Sebasta, era uma matuta muito bonita, solteira, galega, olhos verdes... Conhecendo o nosso pai, que sempre “gostou da fruta”, eu e o Casé sempre desconfiamos que ele tivesse algum um “rolo” com a mesma. Mas nunca tivemos a certeza, era só desconfiança.
Pois bem, certo dia, dormimos em Igaci e, no dia seguinte, logo cedo, assim que acordamos, o papai determinou:
- Casé, vá lá, na casa da Sebasta, buscar o cuscuz, que eu mandei ela fazer.
O Casé, ouvindo a ordem do meu pai, se mandou para buscar o tal cuscuz...
Tem um ditado que diz que “quando o cão não vem, manda o secretário” e desta vez, o Casé foi o “secretário do cão”...
Enquanto esperava a Sebasta terminar de cozinhar o cuscuz, ele pegou uma espingarda “soca-tempero” (arma de fabricação caseira, que o homem da roça usa para caçar passarinhos), mirou numa galinha, que ciscava no meio do terreiro e puxou o gatilho... Nada aconteceu. Então o Casé deduziu o lógico: “Está descarregada”... Minutos depois, aparece a Sebasta, com o cuscuz nas mãos. Casé, mirando a espingarda no cuscuz, que estava nas mãos dela, repito, disse:
- Sebasta, já pensou se esta espingarda tivesse carregada?
Disse isto e puxou o gatilho... O que se ouviu e foi um estampido, seguido de pedaços de cuscuz “voando” para tudo quanto era lado! A espingarda estava carregada. Da primeira vez, ela tinha falhado; tinha “quebrado côco”, como diz o matuto.
Felizmente, o cara era bom de pontaria e a Sebasta não sofreu nada!
Depois do tiro, Casé começou a chorar, antevendo a tremenda pisa que ia levar (o meu pai era mais grosso do que papel de embrulhar pregos). Ele só se acalmou, quando a Sebasta disse que ia fazer outro cuscuz e jurou que nunca ia contar ao papai o que tinha acontecido. Promessa feita e aceita.
Para encurtar a conversa, quando Casé chegou com o cuscuz, o meu pai foi logo perguntando, com aquela educação que Deus não lhe deu:
- Casé, que peste você foi que houve? Por que você demorou tanto?
Casé, meio sem graça, respondeu:
- Foi a Sebasta, papai, que acordou tarde e ainda tava ralando o milho...
O meu pai começou a comer o cuscuz, mas não parava de resmungar, baixinho:
- Sei não... Estou desconfiado desse cuscuz, ele está com um gosto estranho...
Quando o velho saiu, eu perguntei ao Casé porque ele tinha demorado tanto. O meu irmão me contou tudo e achava que papai tinha sentindo um “gosto estranho” no cuscuz porque a Sebasta tinha aproveitado uma parte da massa do primeiro cuscuz, para fazer o novo.
O papai faleceu e nunca soubemos se a Sebasta cumpriu a sua promessa de segredo...
Como “conheço o meu gado”, acho que a desconfiança do meu pai com a demora do Casé naquele dia, não foi nada por causa do gosto do cuscuz. Acho que ele ficou com uma pulga atrás da orelha, se perguntando:
- Será que o meu filho também anda comendo o “cuscuz” da Sebasta?
Até hoje, somente o Casé sabe a reposta...